Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

ano novo

Todos os anos a Terra completa um círculo em torno do Sol, para, num eterno retorno, voltar a repetir na sua cadência regular, o mesmo círculo, mais uma vez. Todos os anos, a nós, humanos, é nos dada a oportunidade para, numa espécie de eterno retorno, revisitarmo-nos mais uma vez, mais sabiamente repetir aqueles temas significativos da condição humana: questionar mais, incluir mais, seleccionar mais, amar mais, sonhar mais...

Numa revolução anual o tempo curva-se sobre si mesmo para lembrar ao homem que o progresso sucessivo é menos importante que a repetição da lição.

Bom 2010!

 enviado por Joao @ 12:20 - 


 
Terça-feira, Dezembro 01, 2009

vocações

M. nascera comandante. Vivia para servir a coisa colectiva. Comandava-a. Havia os outros, cada um com a sua habilidade específica. Dizia que a R. era uma curandeira, capitalizava imenso poder que aplicava com a força da vontade para a regeneração dos outros. A ele, cabia-lhe esse papel de articular estes outros num todo maior. Um serviço invisível, para fazer os outros brilhar melhor, dizia.

 enviado por Joao @ 18:49 - 


 
Sexta-feira, Novembro 20, 2009

o ritual do chá

Kim sentou-se sobre as pernas de costas direitas e pálpebras descansadamente semi-cerradas. As suas vestes largas caiam em ondas sobre o corpo. Tudo na sala era temperado. A luz incide sobre as flores; o vento empurra uma folha caída; o chá está quente.

Toda a poesia oriental é feita no presente. Kim lavou a chávena com o chá e serviu-se de novo. Pegou, num gesto, a pequena chávena e bebeu-o demoradamente. O chá tem esse sabor temperado. Nem muito isto, nem muito aquilo.

É neste estado de não perturbação, de total aniquilamento do perigo, que a mente se reduz a um presente absoluto e tudo o resto fica livre para se manifestar.

 enviado por Joao @ 01:03 - 


 
Sábado, Setembro 19, 2009

da família, hoje

A família (tal qual as massas a concebem) é uma extemporaneidade, um fóssil de outra era que teima em permanecer. A evidência do seu desajuste verifica-se quando a sua constituição já não possui qualquer significado. O papel cosmológico que um dia a família representou (e que talvez ainda fizesse sentido no Egipto antigo ou na cultura Célta) não tem lugar no seio dos cadáveres adiados de família que por aí se vêem arrastar sobre a superfície do planeta.

A família vive agarrada a uma imagem de formalização exterior de algo que já não faz sentido e perde progressivamente a sua qualidade de se constituir enquanto comunidade basilar da sociedade.
Porquê? Hoje verificamos uma maior liberdade na associação entre pessoas, permitindo a emergência de formas sociais novas, tanto pela sua escala como pelos seus conteúdos. Hoje, as tecnologias da informação e os novos graus de mobilidade, permitem que as pessoas se associem segundo graus de compatibilidade cada vez maior, formando verdadeiros grupos temáticos cada vez mais específicos – o grupo de amigos do alpinismo, os amantes de música electrónica, ou mesmo coisas tão inúteis quanto específicas como o grupo de amigos das bolachas oreo, que deve, concerteza, existir –, grupos que não estão sujeitos a um dado número de contactos impostos pela distância e pela morosidade da troca de informação.

Estas dinâmicas rompem com a lógica de uma concepção comum de família.

A família comum segue um modelo que procurava responder a dois aspectos:
1) a necessidade de produção e formação da geração seguinte;
2) a concepção de que a família deve ser baseada no amor romântico, este último definido como sendo aquele que junta duas almas gémeas.

Assim, a família, na sua concepção comum, junta dois entes que já estavam juntos no plano espiritual, para que, em conjunto, ganhem o suficiente para se sustentarem a si e às suas crias. A unidade familiar torna-se assim numa unidade mínima social, económica, com legitimização no plano espiritual.

Ora, observando esta definição de família, verifica-se que estes dois parâmetros precisam de ser actualizados perante as dinâmicas mundiais emergentes:
1) A unidade de produção mínima quer-se, perante a progressiva individualização da economia mundial, que seja coincidente com o indivíduo (façanha que já há algum tempo se permitia), e cada vez mais que seja possível que estes acumulem recursos suficientes para se sustentarem a si e à geração seguinte.
2) A concepção esotérica de um amor romântico para a vida, à imagem do mito das almas gémeas, é cada vez menos predominante, contabilizando também a participação na sociedade Ocidental de práticas culturais de outros credos para as quais essa concepção é totalmente alienígena. Isto é, a definição do amor romântico tem vindo a verificar alterações profundas. Se por um lado se tornou menos romântica e esotérica, por outro tornou-se mais empírica, senão hedonista e realista.

Ambas as transformações enquadram-se numa mundividência informacional da sociedade.
Perante esta prática social que permite uma certa dinâmica, a família, tal qual está, torna-se cada vez mais evidentemente caduca.

Quando as autoridades religiosas, de qualquer credo que seja, juram a pés juntos que a família é a unidade basilar da sociedade e que por isso deve ser preservada, estão a demonstrar uma falha grave de inteligência. É que, das duas uma: ou a família é uma unidade basilar da sociedade, e então não deve ser preservada, mas sim acompanhar “a onda dos tempos” e as transformações próprias da sociedade, ou; se a família deve ser preservada, então terá de deixar de ser concebida, como sempre foi até aqui, como unidade basilar da sociedade, e terá de se transformar noutra coisa – “aglomerado de pessoas que vivem uma experiência esotérica de cariz ocidental”, ou talvez “anacronismo comunitário ocidental”, “os novos-hamish”, qualquer outra coisa, que não família. De qualquer das formas, a família terá de mudar. É necessário repensar o conceito de família de forma a actualizá-lo às condições contemporâneas.

Concebamos então “família” como uma unidade económica, e verifiquemos que esta é, afinal, no mínimo, uma pessoa.
Introduzamos então a componente “amor” e teremos necessariamente de abordar a noção da rede de relações, em todo o seu espectro de intensidades da expressão de amor – uma leitura de amor bem mais policromática do que a versão “amor romântico catrastrófico” inventado pelo romantismo, ou da versão “amor romântico rosa suave para sempre” prometido pelo pequeno-burguesismo que lhe procedeu.

Nesta rede social (rede de relações com amor) de que cada indivíduo se faz acompanhar, uns serão mais íntimos (amor de uma qualidade mais íntima), outros menos (de qualidade menos íntima). É da responsabilidade de cada um decidir a sua rede de contactos próximos e moldá-la em consonância com o seu sentir – seja segundo o mito das almas gémeas (ninguém nega que a família comum, que funcionou tantos anos, não possa continuar a existir com sucesso), ou outro mito qualquer –. Se o romantismo fez coincidir indelevelmente a componente “amor” à ideia de “família”, hoje poder-se-à atribuir um novo parâmetro, que é o de uma concepção mais realista, e portanto mais verdadeira, de amor – isto é, a de se fazer uma contribuição qualitativa na concepção de família. É dentro desta nova rede que existirá um círculo muito próximo de pessoas a que se chamará de família e que é de constituição variável e individual.

E como se enquadra a componente biológica das relações geradas pelo acto procriativo nesta nova família? Perante as transformações da sociedade, é evidente que, ao contrário daquilo que acontecia até agora, as relações por compatibilidades serão cada vez mais predominantes, enquanto que, por oposição, as relações biológicas se secundarizarão. Isto é, está-se a dizer aquilo que, no seu íntimo, toda a gente sabe: a biologia não é um garante de amor, é apenas um possível veículo. A família não pode ser vista como um artefacto que sela o amor, isto é, que vincula duas pessoas. Mostra a evidência que assim não é verdade, bastando olhar para o número de pais e de filhos, mulheres e maridos que se matam uns aos outros alegremente. A família, a ser, terá de ser um artefacto que evidencia algo que já lá está, que o expresse.

Posto isto, afirma-se: a biologia é apenas uma oportunidade que pais e filhos têm de gerarem laços de amor. Os pais, quando decidem procriar, comprometem-se, mais que não seja perante si mesmos, a garantir as condições correctas do nascimento do novo ser. O longo processo do nascimento deste, que acontece pelo menos ao nível físico, psicológico e social, permitem inúmeras oportunidades e vantagens para, durante todo esse processo, se gerarem compatibilidades e oportunidades para se estabelecerem relações de amor entre pais e filhos. Se os pais não aproveitarem essa oportunidade perdem-na, mas autoridade alguma, divina ou não, estabelece que os filhos devam “família” aos pais. Ficam em dívida, sim, no que diz respeito a garantir as condições da morte, por oposição a nascimento, dos pais, isto é, de assistir na sua morte social, psicológica e física. Mas não mais do que isso. Toda a outra responsabilidade cabe aos pais, já que é deles a oportunidade de desenvolverem compatibilidades com os filhos. Os filhos possuem apenas a responsabilidade de nascerem, nos vários planos.

O actual descalabro que se verifica nas relações familiares mostra que é urgente começar a abordar seriamente estas questões.
Não é possível achar-se que tudo está bem numa sociedade onde pais exercem prepotentemente uma noção de direito de propriedade sobre os filhos e que depois não se relacione isto com o abadono galopante em que a terceira idade vive.
Não é possível pensar-se que os velhos, que um dia foram pais, tenham tão descaradamente sido abandonados pelos filhos que terão assistido a nascer. De que se vingam estes? Que violências terão aqueles cometido?
Não é possível que famílias de amor mais reais não lhes seja permitido exprimirem-se, em prol de um finca pé por um modelo de família que já se verificou ser insuficiente e que cada vez mais é anacrónico em relação às dinâmicas socias.
Porque rejeita a sociedade abraçar um ideal de honestidade nas relações, preferindo a forma sobre o conteúdo?

Quando é que se começa realmente a dar a importância que o tema “família” merece?

 enviado por Joao @ 13:31 - 


 
Sábado, Setembro 12, 2009

o Choupal

O Choupal é pinheiros alinhados num xadrez macho-fêmea. As suas naves intermináveis de copas e troncos sondam, como um labirinto da antiguidade, os insondáveis interstícios da realidade. É lá que o inacreditável se manifesta - esquiva-se por entre brechas para espreitar o próprio viajante que o plantou. O labirinto não é um lugar para inebriar os sentidos, um indutor no erro, mas sim um artefacto que torna manifesta a realidade. Atravessar o labirinto é participar na realidade.

 enviado por Joao @ 10:22 - 


 
Sexta-feira, Julho 31, 2009

especializado

Especializado, diz-se daquele que é tornado especial por outrém.

 enviado por Joao @ 23:33 - 


 
Quinta-feira, Julho 16, 2009

da arte

Toda a arte deve passar despercebida: tal como a vida, da qual se espera que as pessoas vivam, mais do que reflictam. É quando o homem começa a reflectir sobre a arte que esta começa a chegar ao fim, tal como acontece com a vida, naturalmente.

Toda a arte deve passar despercebida porque o observador, aquele que se apercebe, deve ser a minoria. A grande maioria criativa deveria ser precisamente aqueles a quem hoje, miseralvemente, se classifica de forma indistinta sob o género de "grande público".

Toda a arte deve passar despercebida.

 enviado por Joao @ 23:28 -