Quarta-feira, Julho 02, 2008

lua-de-mel

A lua-de-mel é o ritual mais ridículo da vida de uma pessoa. Não marca nada. Corrobora nessa distorção que é o da substituição do compromisso emocional sincero por um de natureza contratual, que é no que os casamentos de hoje se tornaram. A não ser que seja visto como uma celebração do casamento - essa conveniência social -, a lua-de-mel não tem qualquer justificação (camufla o absurdo do casamento?). Celebra. Mas ao contrário de qualquer celebração outra, inaugura o percurso, não a sua conclusão com sucesso. É a inversão da sequência natural das coisas, um ritual à imagem dos tempos modernos - a crédito, movido pelo glamour de promessas não concretizáveis [John Berger], rejeitando todo o sofrimento legítimo [Carl Jung].

A lua-de-mel traça a sua origem à noite de núpcias. Esse era um ritual de fecundação. Marca, conceptualmente, o início do período de gestação de 9 meses que irá transformar a mulher de virgem em mãe; o homem de paladino em senhor {ou o príncipe em rei; o mago em imperador.}.

Nem casamento, nem fecundação, nem amor, são hoje imaginados de forma a tornar consistentes nenhum destes rituais de passagem. Insubstanciados desta forma, são uma aberração. A lua-de-mel é apenas a evidência disso.

 enviado por Joao @ 18:38 - 


 
Sábado, Junho 28, 2008

topografias

 enviado por Joao @ 20:28 - 


 
Quinta-feira, Junho 26, 2008

esferas estadunidenses

A Grande Nação Americana não é uma nação, mas uma união de identidades. A união possui 4 esferas distintas de existência. A esfera dos estados, onde as verdadeiras identidades se encontram resguardadas; uma esfera académica e uma a esfera militar, que possuem existências multinacionais, existindo como organismos autónomos que se extendem pairando sobre todo o território e são mundos à parte – cidades próprias, legislação própria, pessoas próprias; e finalmente uma esfera inominável, invisível e impenetrável que conseguiu segregar os Estados Unidos do resto do mundo. Nem um nem outro se vêem tal como são e temem-se mutuamente.

 enviado por Joao @ 04:12 - 


 
Quinta-feira, Junho 19, 2008

quatrocentos

Quatrocentos esquadrões prepararam o desembarque com quatrocentas dúzias de armas preparadas, movimentos letais. Quatrocentos barcos ancoraram na praia com quatrocentos pares de mastros erguidos, agulhas ao vento. Quatrocentos dias assolaram a ilha que em quatrocentos anos se erguera, castelos de areia. Como o orvalho que todas as noites se precipita na ponta de uma pétala espreguiçada para secar com o calor do dia, as comunidades humanas vêm e vão-se com a mesma obstinação, pendurando-se nos contornos espreguiçados da terra, belas efemeridades circunstanciais.

 enviado por Joao @ 05:08 - 


 
Sábado, Junho 14, 2008

os espelhos

A., gostava de exibir-se nú em frente ao espelho. Imaginava um fundo falso como nos filmes e que o vizinho o espreitava por trás do espelho. Aguçava-lhe o sentido de si.

 enviado por Joao @ 04:49 - 


 
Sexta-feira, Junho 13, 2008

epistémese em forma de credo

Todo o sujeito existe em contexto. Um sujeito toma consciência do contexto na mesma medida da dos seus instrumentos de percepção. O limite existe conquanto haja sujeito. A criatividade é o exercício de exploração do limite. A criatividade trabalha a expansão de consciência. Toda a criatividade é um acto metafísico: a forma mais eficiente de criatividade é a espiritual. O limite destingue-se do contorno no sentido que um limite possui somente um lado; um contorno estabelece uma fronteira com dois lados, é o lugar de separação de duas categorias -- o interior e o exterior. Toda a categoria é uma construção mental e, como tal, subjectiva (dependente do sujeito). Todo o sujeito é uma unidade processo-forma-cognição. Todo o sujeito é uma construção.

 enviado por Joao @ 02:43 - 


 
Segunda-feira, Junho 09, 2008

era uma vez um mundo a óleo

Estavam sentados frente a frente nos topos de uma mesa comprida. As franjas da toalha roçavam o tapete em complicados pendentes. Ele relatava as suas aventuras e as suas desaventuras da sua última viagem, não muito diferentes dos representados nos quadros a óleo que cobriam a sala. Ela descalçara-se e brincava com os dedos dos pés enterrados no tapete. A cadeira de madeira era desconfortável. Tinham sido mandadas envernizar recentemente e ainda lhe chegava ao nariz o cheiro tonto do verniz. As cadeiras reluziam à luz pesada que entrava pela sala; tal como reluziam também as travessas de cobre, as brancas porcelanas do serviço novo, os talheres de prata gravados com as iniciais da família. Lançou um sorriso discreto para o outro lado da mesa, em aprovação incondicional. Tudo naquela sala era uma colecção de façanhas, uma sóbria sala de trofeus coleccionados ao longo de várias gerações mas grandemente ampliada pelo sucesso das últimas empresas. No lado oposto da janela uma mesa continha uma série de aparelhos náuticos e um grande globo terrestre. Numa prateleira uma série de objectos científicos para o qual desconhecia o uso estavam dispostos de forma alinhada. Pequenos recipientes contorcidos e lâminas de vidro, objectos metálicos reguados entre outros. Os quadros cobriam a metade superior da sala, representando fortes, batalhas e portos longínquos, rostos desconhecidos e deuses desnudos. Um alto relógio baloiçava no centro da outra parede. Era a nova coqueluche da tecnologia. Tinha entrado várias vezes naquela sala, em segredo, e inspeccionado aquela parafernália de objectos reluzentes, mapas e quadros. Mas do que gostava mesmo era de passar os dedos nas escuras cortinas pesadas e sentir a amarela seda bordada a bordeaux forrando a sala com uma luz dourada. Gostava de sentir o cheiro dos livros de capas esbatidas e enterrar os cotovelos no tapete, estendida a espreitar pela janela azul os longos mastros dos navios a diluirem-se nos ocres do céu e telhados da casa. Olhou absorta o canto do tapete iluminado pela luz pesada daquele dia seco. Lembrou-se então daquela noite em que se tinha refugiado aí com o pintor. Ela num roupão desapertado de algodão sarampitado com pequeninas flores de tons claros; o pintor na sua camisa atabalhoadamente desenlaçada. Ela estirada sobre ele que a entretinha com falinhas mansas. Acabara a noite a mordiscar pêssegos enrolada no algodão áspero da camisa do pintor, enquanto ele já dormia esperneado sobre o tapete. Para ela toda aquela sala era uma colecção de texturas e memórias sensíveis. E havia aquele último quadro uma taça de frutas, com um pêssego que rolara sobre a mesa, que eram a abundância dos novos continentes, tinham-lhe explicado circunspectamente. Soltou uma frase exclamativa de admiração divertida. Para ele tudo era conquistável e possuível. Ele gostava de jantar naquela sala sempre no primeiro dia após a sua chegada de uma viagem. Via-o como ritual geométrico onde perante a totalidade dos seus antepassados e da sua esposa completava a sala com o registo das novas façanhas. Transformara a destreza militar dos seus antepassados em estratégia comercial que geria com igual resolução, planeamento e conquista. A sala e os seus objectos eram a apoteose da palpabilidade do resultado : provava-o concreto, reclamava-o seu. Coleccionava como quem reclamava o mundo, o seu mundo. Via a empresa marinha como um acto de conquista da razão sobre o mundo. Aquela sala encarnava mais um pilar no grande edifício da humanidade regular. De entre todas as salas, esta era a mais rectangular, a mais bem proporcionada, a mais marcada pelo número. Havia uma geometria perfeita que impunha harmonia ao mundo. E ali estavam os trofeus da sua campanha arrancados do caos e dispostos em simbólica disposição, com uma mesa de abundância ao centro onde masculino e feminino tomam a sua refeição como partes complementares, pensava ele. Um mundo perfeito e ideal. Toda a coisa é plena somente na medida em que é um microcosmo. Ela sorriu docemente.

 enviado por Joao @ 00:38 -